sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Batman - O Super-Herói da Mente I - A Máscara Por Trás da Máscara de Bruce Wayne

por
Corto de Malta

Comemorando os 75 anos do personagem criado nas HQs por Bill Finger Bob Kane, inicio aqui uma série de textos que tem por objetivo procurar desvendar ao máximo a profundidade dos filmes Batman Begins, Batman - O Cavaleiro das Trevas e Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, dirigidos por Christopher Nolan. Das metáforas junguianas a alegoria do cristianismo.

Parte I



"Qualquer um poderia ser o Batman."

Muita gente já ouviu essa frase e tenho certeza que ela norteou Christopher Nolan quando ele decidiu adaptar as histórias do personagem para o cinema. Quando Batman foi originado em 1939 por Bob Kane era um super-herói genérico, pois seu autor oficial, tal qual um Dr. Frankenstein, juntou pedaços de outros personagens, Super-Homem, Zorro, O Sombra, O Morcego (filme mudo de 1926) etc., e foram os escritores e artistas que trabalhavam para Kane, especialmente Bill Finger (considerado por muitos o verdadeiro criador de Batman), além de seus colegas Jerry Robinson e Gardner Fox, entre outros, os responsáveis por "soprar vida na criatura de barro", conferindo-lhe algo que marcaria para sempre o caráter do personagem: Alma ou Psique. Psique vem do latim Psychḗ e significa Sopro, Respiração.

Porém, existem vários textos apontando as ligações entre as histórias em quadrinhos do Batman e a trilogia, inclusive alguns escritos por mim mesmo. A intenção de Batman - O Super-Herói da Mente é focar mais nas inspirações que o diretor e seus roteiristas David Goyer e Jonathan Nolan tiveram fora das HQs e que seguramente também inspiraram Finger, Denny O'Neal, Grant Morrison, entre outros escritores do Homem-Morcego ao criarem os quadrinhos do personagem.


Parte II



O filme Batman Begins se inicia com a cena de uma brincadeira entre Bruce Wayne e Rachel Dawes ainda crianças quando o jovem Bruce sem querer cai no buraco de um poço e é atacado por uma chuva de morcegos. A seguir o Bruce adulto acorda numa prisão no Butão do outro lado do mundo e descobrimos que o pesadelo era uma lembrança de um trauma de infância.

Os morcegos ainda traumatizam Bruce muitos anos depois. Somado a isso, naquela mesma noite ele presenciou os seus pais serem assassinados por um ladrão, Joe Chill. Fato este que mudaria o seu destino para sempre. A violência desses acontecimentos alteraram seu equilíbrio psicológico, biológico e social e o seguiram por toda a vida. Segundo a psicologia Bruce sofre os efeitos do Transtorno do Stress Pós-Traumático. Talvez a única coisa que impediu o garoto de oito anos de enlouquecer foi o gesto de carinho e solidariedade do policial James Gordon ao cobri-lo com um casaco.

Com a alma marcada por estes acontecimentos, ele cresceu infeliz, frustrado, insatisfeito, inquieto e ansioso, em busca de algo que possa lhe curar. Em certo ponto de sua juventude - após presenciar a morte de Joe Chill e perceber que isso não lhe devolveu a felicidade perdida - o personagem decide parar de se vitimizar e passa a buscar o caminho da resiliência para lidar com sua condição mental. É neste momento que o seu Inconsciente Individual consegue fazer chegar ao seu Consciente a mensagem que aprendera com seu pai na infância após este resgatá-lo do buraco dos morcegos:
"Por que caímos? Para aprendermos a nos levantar."



Leia mais sobre o estado clínico do personagem clicando aqui.

Parte III




Bruce parte então numa jornada buscando uma ressignificação para a sua existência abalada pelo trauma. É isso o que mais tarde vai transformá-lo no Batman. Durante este período Bruce passa pelo que Carl Jung chamou de Processo de Individuação, que significa que o ser humano evolui de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o que implica uma ampliação da consciência. Jung se inspirou no processo da Alquimia para explicar as quatro etapas da Individuação, que são descritas de modo ilustrativo durante Batman Begins:

Nigredo (Morte Espiritual ou Confissão) - Após ser resgatado da prisão do Butão por Henri Ducard, Bruce passa a treinar com a Liga das Sombras e recorda seus traumas narrando-os a seu mestre. Em flashback é mostrada uma segunda confissão, de Bruce a Rachel.

Ele conta que quando descobriu que Joe Chill teria sua pena reduzida, ao delatar seu companheiro de cela, o mafioso Carmine Falcone, foi ao tribunal armado para matá-lo e mostra seus piores sentimentos a ela. No entanto, uma agente de Falcone fez o trabalho primeiro eliminando Chill diante dele, tomando-lhe a sua vingança. Ao demonstrar suas intenções, Bruce confessa a Rachel:


"Eu não sou um dos bonzinhos."




Albedo (Purificação ou Esclarecimento) - Após ser confrontado com Rachel de que esse não era o desejo de seu pai, Thomas Wayne, ela lhe mostra os problemas sociais que a cidade deles, Gotham, vivia. A mesma cidade que seu pai amava e tentou ajudar em vida. Após discutir com ela, Bruce reflete e atira sua arma e sua raiva no mar. A seguir, ele confronta Falcone e é humilhado por ele, que lhe diz que alguém como Bruce, um rico herdeiro, milionário e paparicado, nunca compreenderia o poder que o medo pode causar.

Bruce decide então partir pelo mundo para entender a mente dos criminosos e combater todo o crime e não apenas aquele que tomou a vida de seus pais. Em uma verdadeira auto análise Bruce vive como um mendigo e aprende o que é roubar por sentir fome, além de aprender a lutar. Mas permanece isolado de todas as pessoas de seu convívio como Rachel e Alfred, o mordomo da família, que acabou sendo um pai de criação para Bruce. Os anos se passam e ele é dado como morto, até ser  recrutado por Ducard para a Liga da Sombras.

Citrinitas (Despertar ou Educação) - Ducard treina Bruce para se tornar algo maior do que um mero justiceiro, e ser poderoso na mente de seus oponentes. Ele também o faz confrontar seus piores medos e o ensinar a "ficar atento ao que cerca você", algo que não é possível ocorrer na Fase Albedo, quando a pessoa está totalmente voltada para dentro de si própria.





Porém, a Liga das Sombras, liderada por Ra's Al Ghul, planeja destruir Gotham City, metrópole que eles consideram símbolo de corrupção do mundo e querem que Bruce os lidere. Como prova de lealdade eles pedem que o jovem corte a cabeça de um homem que foi pego roubando. Fica claro que Ducard se colocou como figura paterna do carente Bruce para que ele sofresse uma lavagem cerebral, fazendo-o até mesmo odiar seu pai por não ter reagido ao assalto e protegido a ele e a sua mãe, Martha Wayne.

Como o Bruce ampliou sua consciência sobre o certo e o errado, ele amadureceu e aprendeu a criar empatia com o outro. Por isso, enfrenta a Ra's e os homens da Liga para salvar o homem, explodindo o Monastério que lhes servia de esconderijo. Resgatando Ducard com vida, Bruce então retorna a Gotham após sete anos.

Rubedo (Iluminação ou Transformação) - Na alquimia esse era o momento em que se acreditava que a síntese de elementos faria surgir a pedra filosofal. Na psicologia significa o período de integração entre os opostos que existem dentro de nós. Bruce decide combater o crime em Gotham, mas antes de começar oficialmente ele desce até a caverna onde ficava o poço em que tinha caído na infância e fica parado enquanto é cercado por morcegos.

Nesse momento ele se aceita como é e se torna o Batman, passando a se vestir de Morcego para combater o crime.



Parte IV

Mas por que ele é o Batman?

Sigmund Freud definiu que o centro da Psique é o Ego (Eu). Ele também dizia que dentro do Inconsciente de cada um de nós existe o Id (Isso), que seria nosso repositório de impulsos e desejos e que fica em constante conflito com o Superego (Supereu), a parte da Psique que representa os valores morais da sociedade e que censura as vontades primitivas do Id. Freud provavelmente ficaria fascinado com o personagem e identificaria em Batman uma versão gráfica ao vivo e a cores do Id de Bruce Wayne.

No entanto, vamos nos concentrar um pouco mais na proposta de Jung, que enxergava a Psique de maneira diferente de Freud. Jung também reconhecia o Ego como centro, mas apenas da Consciência. Como o Inconsciente é muito maior que o Consciente ele identificava que o centro de toda a Psique ficava no primeiro e não no segundo. A este centro da nossa Alma Jung chamou Self (Si Mesmo). Batman é o Self de Bruce Wayne.

Jung falava:
"Dentro de nós existe um outro que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos."


Na cena inicial em que Bruce sonha com o dia em que caiu no buraco, aquela era uma forma do Self (Batman) entrar em contato com o Ego (Bruce). Uma das razões de Batman Begins começar no meio da história com o personagem recordando o passado para depois seguir em frente é a aplicação dos princípios da Causalidade e da Teleologia.

A Causalidade demonstra que o presente de uma pessoa é resultado de seu passado, as consequências de hoje são resultados dos fatos ocorridos ontem. Mas Jung defendia que a Psicologia deve aplicar, além dela, a Teleologia, que defende que os fins e propósitos são mais importantes que as causas, ou seja, o presente de uma pessoa é também determinado porque aquilo que ela será no futuro.

Ou seja, a personalidade de Bruce Wayne pode ser compreendida tanto por sua infância traumática quanto por seu destino de se tornar um herói. Jung acreditava que nesse caminho da Teleologia o Self agia oculto em nossas mentes guiando nossos caminhos. Dessa forma Nolan faz com que Batman seja o tempo todo um agente oculto que impulsiona Bruce na sua jornada para encontrar a Si Mesmo. Si Mesmo = Self. Ou seja, Bruce se lança numa jornada para encontrar Batman.



Parte V

Num determinado momento de Batman Begins, o psiquiatra Doutor Jonathan Crane, encontra Falcone que foi preso pelo Batman e, após colocar uma máscara, aplica nele o gás do medo. O mafioso passa a um estado de terror e a seguir fica catatônico, balbuciando a palavra Espantalho. Crane então explica a Rachel:

"Pacientes que sofrem episódios delirantes frequentemente centram a sua paranoia em um algoz externo. Normalmente em conformidade com os arquétipos junguianos. Neste caso, um Espantalho."


Este foi um recurso de Nolan para materializar num discurso tudo o que havíamos visto acontecer até aqui com Bruce/Batman. Os Arquétipos são as imagens primordiais que existem ao longo da História da Humanidade. Segundo Jung eles são fundamentais para o desenvolvimento e a evolução dos indivíduos. O Self é um arquétipo, uma representação do centro da Alma (Psique). Nos aprofundaremos mais neles no Capítulo II.

Quando Bruce retorna a Gotham e passa agir com seu novo Eu (Ego), Alfred o aconselha a sair e  usufruir de sua fortuna se divertindo, para disfarçar suas atividades como combatente do crime perante os olhos da sociedade. Bruce passa então a desempenhar um papel de Playboy mulherengo, esbanjador e irresponsável, que de fato era exatamente o que Gotham City esperava que ele fosse, e não um Vingador Mascarado.




Esta nova identidade é o Arquétipo da Persona porque Persona era o nome das Máscaras do Teatro Grego. É aquela parte externa da Psique que tem por finalidade fazê-la se adaptar ao mundo se relacionando socialmente. Quanto mais você vive em um mundo de aparências, maior a Persona. A alta sociedade de uma metrópole ocidental faz com que Batman solicite várias vezes o uso dessa Persona.

No entanto, sabemos que ela não é sua face verdadeira quando Rachel surge e diante de seu amor de infância, Bruce fica subitamente envergonhado e tenta explicar que aquele não era ele e que "por dentro" ele era mais, ao que ela responde:

"Não é o que você é por dentro. É o que você faz que te define."





Mais tarde Bruce descobre que Henri Ducard era o verdadeiro Ra's Al Ghul, sendo aquele que morreu no Monastério um falso personagem e um dos muitos servos leais que ele usava pra esconder sua real identidade (Nolan não cita isso, mas nas HQs do Batman esses personagens são conhecidos  como Ubu).

Vamos definir aqui nestes textos um ponto importante para melhor entendimento da trilogia de Nolan e o que ele quis mostrar ao público. A diferenciação entre Identidade e Personagem. Vamos deixar convencionado que as Identidades são as diferentes faces de um personagem.



O ator Liam Neeson interpreta Ra's Al Ghul. A Persona de Ra's Al Ghul é Henri Ducard. Se Henri Ducard é ou foi seu verdadeiro nome em algum ponto de sua vida isso não importa. De forma bastante similar o ator Christian Bale interpreta Batman, cuja Persona é Bruce Wayne. Durante um ataque terrorista da Liga das Sombras no Narrows - região pobre de Gotham City composta por vários cortiços e pelo Asilo Arkham onde ficam os criminosos insanos - Batman salva Rachel e ela pede pra saber o nome do mascarado.

Como uma resposta monossilábica seria inadequada demais para explicar a complexa relação entre Bruce Wayne e Batman, ele responde:

"Não é quem eu sou por dentro. Mas o que eu faço que me define."





Só que o personagem Batman\Bruce não é completamente similar a Ra's Al Ghul\ Henri Ducard. Porque Christian Bale interpreta TRÊS identidades e não duas. Uma é o herói, outra o playboy e a terceira aquele menino que caiu no poço no início do filme, o Bruce Wayne verdadeiro. Quando Rachel reencontra Bruce no fim de Batman Begins ela diferencia perfeitamente essas identidades quando, após beijá-lo e tocar seu rosto, diz:

"Esta é sua máscara. O seu verdadeiro rosto é aquele que os criminosos temem. O Homem que eu amei, o homem que desapareceu... nunca mais voltou."



A tragédia da história é que para Rachel, Alfred e os que o conheciam, o verdadeiro Bruce nunca realmente retornou de sua viagem pelo mundo. Mas para o próprio Bruce ele se perdeu muito antes disso. A ideia de Nolan - e também de alguns autores do Batman, diferente de outros - não é que Bruce criou em sua mente a fantasia de que morreu com seus pais naquela noite e usou isso como motivação para virar outra pessoa, Batman.

A ideia aqui é sim que para o seu Inconsciente ele ainda está preso no poço. É como se, de uma forma sutil, a mente de  Bruce achasse que ele não era ele. E que aquele que o pai dele tirou do fundo do poço fosse um dos Morcegos que ali viviam. Que na visão de um garoto de oito anos apavorado era um monstro. Ou seja, ele enxerga a Si Mesmo (Self) como um monstro.

A diferença de todos os outros é que ele está disposto a usar esse monstro para fazer o Bem. Por isso quando Alfred lhe critica dizendo:

"Você está se perdendo dentro desse seu monstro."

Bruce responde:

"Eu estou usando esse monstro para ajudar as pessoas."




Por quê? Bem, Jung dizia que a vida de um homem precisa de significado.






2 comentários:

cirotresrios3 disse...

São sempre ótimos os seus textos. Parabéns!

Richard Christian disse...

Corto de várzea, moleque.

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