sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Batman - O Super-Herói da Mente VIII - Um Conto de Duas Cidades

por
Corto de Malta

"Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice, foi a época da fé, foi a época da incredulidade, foi a estação da luz, foi a estação das trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós."

Parte I

Essas palavras são o início do romance Um Conto de Duas Cidades de Charles Dickens, no qual Christopher Nolan se inspirou para concluir a Trilogia Cavaleiro das Trevas. The Fire Rises, título do capítulo 23 do livro, é a frase dita por Bane para o membro da Liga das Sombras no avião na cena de abertura de O Cavaleiro das Trevas Ressurge.



A obra de Dickens aborda a Revolução Francesa. Desde o período anterior, quando os aristocratas oprimiam o povo, até quando os revolucionários se tornaram opressores. No livro o Dr. Manette fica durante anos preso injustamente na Bastilha, quase enlouquecendo por não ter cedido a chantagem dos Irmãos Evremonde, dois aristocratas responsáveis pelo estupro de uma camponesa e assassinato dela e de quase todos os membros de sua família.

Na Bastilha o Dr. Manette escreve um documento onde denunciava os Evremonde e pedia punição para eles e seus descendentes. Tempos após ser libertado e vivendo na Inglaterra com a família, o Dr. Manette descobre que o noivo de sua filha Lucie Manette, um homem chamado Charles Darnay, é na realidade filho e sobrinho dos homens que destruíram sua vida e daquela família de camponeses. Mas Darnay havia rompido com seus familiares justamente por ser uma pessoa diferente, tanto que alterara até seu sobrenome.

Porém, mais tarde todos retornam a França durante o processo da Revolução. A Prisão da Bastilha onde vários foram injustiçados havia sido destruída pelo povo enfurecido.




Darnay é preso acusado pelos revolucionários acusado pelos crimes de sua família. O Dr. Manette, muito bem visto pelo povo por ter sido um dos prisioneiros injustiçados pela aristocracia local, defende seu genro. O que ele não esperava é que uma velha conhecida, Madame Defarge, houvesse encontrado a carta em que ele acusava os Evremonde e condenava a eles e as gerações seguintes, incluindo Charles Darnay e sua neta, filha de Charles com Lucie.

O dilema do Dr. Manette é o mesmo enfrentado pelo Comissário Gordon em O Cavaleiro das Trevas Ressurge e é o gancho para Bane dominar psicologicamente a cidade expondo através do discurso tirado do policial a verdadeira face do Cavaleiro Branco Harvey Dent, o Duas Caras. Tal como Dickens Nolan está aqui entrando no pantanoso terreno da política e mostrando sua ambiguidade. E assim como o Dr. Manette no livro, Gordon percebe que certo e errado podem ser mais complexos do que se imaginava.




 A Queda de Blackgate representa A Queda Bastilha. Vemos aqui um pessoa que tentou fazer algo bom com uma mentira (Gordon) e uma outra (Bane) que tenta fazer algo ruim com a verdade, exemplificando a ambiguidade existente nas questões políticas.  Sim, porque tudo o que Bane e John Blake acusam Gordon de fazer com ajuda do Batman é verdade. E, embora tenham tido boas intenções, achando que os fins justificavam os meios, acabou não dando certo.

É o que Gordon diz a Bruce quando ele vai visitá-lo no hospital e o que Ra's Al Ghul diz para Bruce Wayne quando ele está delirando de dor na Prisão do Poço: vencer com uma mentira não é vencer e traz consequências negativas a longo prazo. E outro aspecto dessa ambiguidade é ressaltado justamente por Ra's, vilão do primeiro filme, ser a consciência de Bruce.



E foi da seguinte maneira que Nolan definiu Bane:

"Ele representa um outro lado de Bruce Wayne. Alguém que Bruce Wayne poderia ter se tornado em um universo paralelo ou algo assim."

Em outras palavras, Bane é quem Bruce Wayne teria se tornado se tivesse aceitado tornar-se um executor para a Liga das Sombras, cortando a cabeça daquele ladrão no primeiro filme da trilogia.



Parte II

A Lei construída sobre a lenda Harvey Dent conquistou algumas vitórias para os heróis e outras derrotas. A máfia foi praticamente extinta da cidade, mas muitos direitos civis foram desrespeitados. Pessoas forma trancafiadas na Prisão Blackgate sem direito a condicional durante anos. Numa cena vemos como Gotham beira uma Estado Fascista, quando Selina Kyle, uma ladra e falsária, é colocada na mesma prisão um grupo de homens perigosos e os guardas comentam que a lei que levava o nome de Harvey Dent permitia esses extremos.

Por outro lado, o crime continua acontecendo. Não existem mais os Falcones e os Maronis, mas existem os Daggetts e os Stryvers. Milionários corporativistas que patrocinam verdadeiras milícias armadas para executarem ações violentas com o objetivo de conseguirem mais dinheiro. Christopher Nolan usa John Daggett  na narrativa aparentemente como um Arenque Vermelho, ou seja, um elemento utilizado para despistar a atenção do público No entanto, ele acaba tendo uma função bem forte no contexto das ações.



Ao mesmo tempo em que pessoas de alto poder aquisitivo como Daggett continuam cometendo crimes, a desigualdade social cresceu em Gotham. E vemos isso através de personagens como Selina Kyle e sua amiga Holy. Quando Selina explica seus métodos a Bruce ela alega que nunca roubou de quem precisava, só de quem tinha demais, a ponto dele compará-la a Robin Hood.

Um outro exemplo que mostra como essa questão econômica afeta o lado social da cidade. são John Blake e os garotos do orfanato de Gotham. Enquanto Bruce dava dinheiro para sustentar a instituição, jovens como Blake tinham estabilidade para terem uma vida digna, como a dele que virou policial. A partir do momento em que as Empresas Wayne deixaram de dar dinheiro ao orfanato, as crianças saiam de lá ao se tornarem adultas e aliavam-se à Liga das Sombras.



A ironia é que isto ocorreu porque Bruce dedicou todos os seus recursos para a construção de um reator de energia limpa e barata, que beneficiaria toda a cidade. Este mesmo reator é transformado pelo Dr. Pavel numa Bomba Nuclear utilizada por Bane para ameaçar Gotham e chantagear o mundo exterior. Mais um exemplo da ambiguidade presente na obra, onde um instrumento de salvação transforma-se numa arma de destruição em massa.

Tudo isso é muito importante de se apontar por tudo que foi falado sobre Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge e suas visões superficiais. Algo semelhante com o que ocorreu com o Coringa em Batman - O Cavaleiro das Trevas, mas numa proporção muito maior. As pessoas simplesmente não entenderam a complexidade do conteúdo e tentaram encaixá-lo numa visão infantil equivocada do que a obra era na realidade. Então neste ponto temos que esclarecer sobre o que o filme NÃO é.



Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge não é um filme político, mas é uma fábula política. Mais que isso: é uma fábula sobre o mundo em que vivemos hoje. E especialmente não é um filme de Direita ou de Esquerda porque se coloca em posição crítica a ambos. Nolan foi taxativo sobre isso:

"O que foi surpreendente para mim é como muitos especialistas iriam escrever sobre sua interpretação política do filme e não entender que qualquer interpretação política necessariamente envolvia ignorar enormes pedaços do filme.
E isso me fez sentir bem sobre onde havíamos colocado o filme, porque não tem a intenção de ser politicamente específico. Seria absurdo tentar fazer um filme politicamente específico sobre este assunto, onde você está, na verdade, tentando sair das amarras da vida cotidiana e ir para um lugar mais assustador em que qualquer coisa é possível. Você está fora do espectro político convencional, por isso é muito sujeito a interpretação e a má interpretação."



Muitas pessoas enxergaram na manifestação popular liderada por Bane uma crítica direta ao Occupy Walt Street (grupo que protesta contra a concentração de riqueza em 1% da população), o que é impossível já que o roteiro havia sido escrito antes do movimento chegar às ruas.

''Eu tive como muitas conversas com pessoas que viram o filme ao contrário. [...] Nós colocamos um monte de perguntas interessantes no ar, mas isso é simplesmente um pano de fundo para a história. O que estamos realmente tentando fazer é mostrar as rachaduras da sociedade, mostrar os conflitos abertos que alguém iria tentar se aproveitar. Nós vamos chegar a muitas diferentes interpretações sobre o que o filme apoia e não apoia, mas ele não está fazendo nenhuma dessas coisas. Só está contando uma história. Se você está dizendo, "Você fez um filme que deveria estar criticando o movimento Occupy Wall Street?" - Bem, obviamente, isso não é verdade.''
Tanto em entrevistas para a Empire quanto para Rolling Stone, Christopher Nolan procurou estabelecer que o mundo que vimos na trilogia - e especificamente no terceiro longa metragem - é um mundo de extremos.



Jean Pierre Faye desenvolveu um conceito chamado Horseshoe Theory, a Teoria da Ferradura. Talvez não seja o modelo ideal, mas é o mais próximo no momento para entendermos a complexidade atual, que sofreu inúmeras transformações  após a Revolução Francesa, de onde surgiram os conceitos de Direita e Esquerda. De acordo com Faye poderíamos dividir os grupos políticos Extrema Esquerda, Esquerda, Centro, Direita e Extrema Direita adotando o modelo de uma ferradura.

A Extrema Esquerda estaria localizada numa das pontas da Ferradura, a Extrema Direita na outra ponta. A Esquerda seria o lado esquerdo e a Direita lado Direito. No meio, onde os dois lados se ligam ficaria o Centro. A novidade apresentada pela Teoria da Ferradura é que por seu formato de uma curva pra dentro, as pontas estariam próximas entre sido que os lados. Ou seja, a Extrema esquerda é mais próxima da Extrema Direita do que da Esquerda e a Extrema Direita é mais próxima da Extrema Esquerda do que da Direita.




Faye elaborou esta teoria para ilustrar como extremistas, mesmo com intenções diversas e tomando partidos opostos, podem chegar a semelhanças inquietantes. Ambos defendem uma intervenção violenta para mudar o sistema, flertam com o militarismo e com o autoritarismo de regimes totalitaristas, além de serem antidemocráticos e discriminarem determinados grupos diferentes, por questões raciais, ideológicas, ou de origem. Entre outros pontos de convergência.

Nas manifestações de rua ocorridas no Brasil em meados de 2013 podemos alguns exemplos deste extremismos antagônicos que partem de pontos opostos para terminarem chegando ao mesmo lugar. E não é um bom lugar.



Nolan parece seguir este mesmo caminho já que em todas as entrevistas frisou que Gotham da trilogia não estava dentro dos Espectros Políticos tradicionais de Esquerda e Direita. E foi particularmente enfático quando a Rolling Stone perguntou se Batman era de Direita. Durante muito tempo circulou pela Internet a imagem abaixo:




Vejamos a opinião do cineasta.

"Algumas pessoas diriam, por inerência, desde o início, que Batman é um personagem de direita, que estabelece a lei e a ordem por esmurrar criminosos com os punhos.  
Sim, se você assumir que Gotham é o mesmo que um lugar como Nova York, mas esse não é o caso. A corrupção que impulsiona Bruce Wayne para se tornar Batman é muito extrema. Então, você sabe, o seu conceito de "O fim justifica os meios?" muda de acordo com o contexto. E assim o desafio de Batman Begins era fazermos o bem com a ideia de vigilantismo. Os filmes genuinamente não se destinam a serem políticos. Você não quer se indispor com as pessoas, você quer criar uma história universal."
[leia mais aqui]

Em Batman Begins o assassino dos pais de Bruce Wayne, Joe Chill, é descrito como uma vítima da Depressão Econômica na cidade. Bruce tinha o desejo de matá-lo para saciar seu desejo de vingança, mas uma conversa com Rachel Dawes o faz perceber que não passava de "um covarde com uma arma". É quando o personagem decide iniciar sua jornada para tornar-se Batman e enfrentar diretamente o crime organizado que corrompia Gotham.



Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge vemos as consequências de anos de combate ao crime de Batman. E esse cuidado do diretor em não colocá-la especificamente dentro do espectro político convencional fica mais nítido toda vez que a Direita ou a Esquerda chegam mais próxima das ponta da ferradura, ou seja do extremismo. Nesses momentos o Batman NÃO ESTÁ PRESENTE.

Quando a cidade tornou-se quase um estado fascista com a lei que levava o nome de Harvey Dent, Bruce Wayne estava exilado na sua mansão e alienado do mundo a ponto de nem saber que sua empresa havia parado de dar dinheiro ao orfanato local. Por outro lado, quando Bane dá início ao verdadeiro Golpe de Estado sobre Gotham, e incentiva os pobres e marginalizados a tirarem os ricos de seus "ninhos decadentes", Batman está prisioneiro no Poço do outro lado do mundo e só retorna no fim quando a Bomba Nuclear está prestes a explodir matando a todos sem distinção de classe.

Agora, se as pessoas seguirem insistindo muito que um filme onde as aparências confundem deliberadamente e onde máscaras são figuras centrais do enredo é uma obra de Direita... então provavelmente ele é uma obra de Esquerda.



Parte III

Creio que é nesse ponto em que realmente entramos na questão do sobre o quê o filme está falando. Quando compreendemos o que ele representa de fato podemos assimilar os pontos onde ele dialoga com a realidade. Um destes, em que mais uma vez as noções de Direita e Esquerda tornam-se mais nebulosas, é quando incluímos o elemento da Religião. Adicione a esse caldeirão especulação financeira e terrorismo e temos uma amostra do que é o mundo atual.

Em primeiro lugar, embora não seja uma representação do Occupy Walt Street, O Cavaleiro das Trevas Ressurge aborda um mundo onde os 1% oprimem os 99%, ou seja, o longa metragem também aborda os efeitos da crise do capitalismo, especialmente a que ocorreu em 2008.



"Nós estávamos escrevendo anos antes do Occupy Wall Street, e nós estávamos realmente filmando no momento em que ele surgiu, mas eu acho que as semelhanças vêm do fato de Occupy ser uma resposta para a crise bancária de 2008. Nós estávamos sentados lá em um mundo onde, através das notícias, nós estávamos constantemente sendo apresentados a cenários hipotéticos. Como: “O que aconteceria se todos os bancos fossem à falência?” “E se o mercado de ações não valesse nada?”
Essas questões são terríveis, e nós estávamos tomando a visão de que deveríamos estar escrevendo sobre “o que é mais assustador?”. Nós viemos com a ideia de como na América nós garantimos uma estabilidade de classe e estrutura social, que nunca foi sustentada em outras partes do mundo. Em outras palavras, esse tipo de coisa tem acontecido em países de todo o mundo, por que não aqui? E por que não agora? Então, um monte de ideias subjacentes do filme vem de uma situação em que a economia estava em crise e, portanto, até mesmo sobre as questões de que notícias como essas estão levantando questionamentos impensáveis sobre o que pode acontecer na sociedade."



Portanto, não é pro acaso que Bane ataca a Bolsa de Valores e faz reféns ocorre este diálogo entre um dos operadores e um policial:

" - Precisamos agir rápido. O dinheiro de todo mundo está aí dentro.
- O meu não. O meu está debaixo do colchão.
- Se não pegarmos esses caras, o dinheiro que você tem debaixo do colchão não valerá nada."
Superficialmente poderíamos achar que o filme se vale da dicotomia de Bem Contra o Mal para mostrar um vilão atacando o coração do capitalismo para mostrar que ele é algo de bom a ser salvo, mas quem assistiu todos os três filmes e leu todos os textos de O Super Herói da Mente até aqui sabe que essa interpretação infantil de Bem e Mal passa longe dos filmes. O que realmente o cineasta quis evidenciar é o quanto o sistema capitalista é frágil.



Bruce Wayne torna-se vítima da especulação quando do dia pra noite ele passa de bilionário a alguém que não tem dinheiro pra pagar a conta de luz, quando Daggett usando as digitais do herói que Selina Kyle roubou para fazer Bane levar o protagonista à falência durante o ataque à Bolsa. O que na realidade não passava de um plano maior para forçar Bruce a entregar a Miranda Tate a localização do reator que dará origem à bomba nuclear.

Antes do Bane invadir o local dois homens conversam sobre se o retorno de Bruce Wayne à vida pública é bom ou ruim para o mercado. Isso é pura especulação financeira. E o ataque da Liga das Sombras a seguir é a especulação sendo levado ao extremo.



É inevitável  também não estabelecer uma ligação entre a Liga das Sombras e grupos terroristas formados pro extremistas islâmicos. Em Batman Begins o plano de Ra's Al Ghul de usar o medo como arma e varrer Gotham do mapa porque ela se tornou um símbolo da decadência da civilização ocidental encontra eco na Al Qaeda.

Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Alfred apura que Bane fora um membro da Liga das Sombras expulso por seu líder e, desconhecendo o verdadeiro motivo - Ra's o afastou porque as marcas no rosto dele lhe lembravam a maneira brutal como sua esposa havia morrido - diz:

"E qualquer homem radical demais para Ra's Al Ghul não deve ser subestimado."


O próprio Batman deixa Bane furioso durante a primeira luta dos dois quando diz:

 "Você foi expulso de uma gangue de psicopatas".

O Estado Islâmico é considerado uma dissidência mais radical da Al Qaeda. O fato deste grupo ter se tornado mais proeminente tempos após o lançamento do filme, não desmente a a obra de ficção. Pelo contrário mostra que ela apontou a direção ao tratar dos desdobramentos do extremismo. Ainda mais porque segundo Nolan o extremismo religioso é um ponto importante da Trilogia:

"Eu acho que realmente vilões ameaçadores são aqueles que têm uma ideologia coerente por trás do que eles estão dizendo. [...] E, enquanto Ra’s Al Ghul é um extremista quase religioso, Bane se vale de uma luta de classes, mas também em uma abordagem militarista ditatorial. Se você olhar para os três, Ra’s Al Ghul é quase uma figura religiosa, o Coringa  é a figura anti-religiosa, o anarquista anti-estrutural. E então Bane entra como um ditador militar. E ditadores militares podem ser baseados em ideologias, eles podem ser baseados em religiões, ou numa combinação delas."

[leia mais aqui]



Isso explica porque o membro da Liga aceitou ficar e morrer no avião na cena de abertura e porque o plano de explodir a bomba não era somente genocida, mas também suicida. Eles não eram mercenários, não matavam e morriam por dinheiro, mas por uma causa, tal como os terroristas da atualidade. [clique aqui para ler mais].

E as semelhanças da Ligas das Sombras com extremistas do Oriente Médio não param por aí. Quando Bane captura os homens da Guarda Nacional ele manda enforcá-los "onde o mundo possa ver". Então pela televisão da prisão Bruce assiste os homens pendurados por guindastes. Isso é uma referência clara aos Guindastes da Morte, utilizados em execuções públicas pelo governo do Irã controlado pelos Aiatolás.




Outro ponto de convergência com a realidade é a cena em que Bane explode o estádio de futebol e faz o Dr. Pavel mostrar a Bomba Nuclear - que ele havia sido forçado a criar a partir do Reator de Energia de Bruce - ao povo para matá-lo em seguida.O primeiro reator nuclear artificial foi o Chicago Pile-1. Ele foi construído pelos físicos Enrico Fermi e Leó Szilárd debaixo do estádio de futebol abandonado Alonzo Stagg na Universidade de Chicago e o primeiro teste atômico foi realizado ali em 2 de setembro de 1942.

Além disso o auto exílio de Bruce Wayne em sua mansão é inspirado no auto exílio de Howard Hughes. Por isso a cena em que Daggett descreve a Miranda o estado em que pessoas acreditavam que Bruce estava (com barba e unhas enormes) era uma referência direta a Hughes. Já quando Bane é vagamente inspirado em Robespierre e sua atuação na Revolução Francesa, quando toma o controle de Gotham e instaura tribunais de exceção controlados pelo Dr. Jonathan Crane, o Espantalho, que executa diversos cidadãos.



Parte IV

O fato de Bane manipular um movimento popular ligado à Esquerda não significa necessariamente uma vilanização da Esquerda. Simplesmente porque os extremistas islâmicos que a Liga das Sombras simboliza se encontram na Extrema Direita do Espectro Político [comentei um pouco sobre isso aqui], tanto quanto qualquer fanático religioso de qualquer religião - até porque tradicionalmente a Direita é mais próxima às religiões do que a Esquerda.



Mais uma vez chegamos à Teoria da Ferradura, ou seja, o encontro entre a Extrema Esquerda e a Extrema Direita. Nolan declarou que sua ideia não era criminalizar os movimentos sociais, mas sim mostrar como eles poderiam ser manipulados:
"E depois você entra na questão filosófica: se uma energia ou um movimento pode ser cooptado para o mal, então isso é uma crítica ao próprio movimento? Todas estas diferentes interpretações são possíveis."


Um diálogo revelador surge logo no início do terceiro longa metragem quando Bruce e Alfred comentam que Daggett foi responsável por um grupo que realizou um Golpe de Estado num país da África, com o objetivo de se apropriar de uma reserva de diamantes local. Esse grupo provavelmente foram os mesmos mercenários da Liga das Sombras liderados por Bane que após isto fizeram a mesma "revolução" em Gotham.

O filme Diamante de Sangue aborda mais a fundo essa situação ao retratar a atuação do grupo militar Frente Revolucionária Unida, que dominou regiões de Serra Leoa durante a guerra civil no país. Enquanto o filho de um personagem é recrutado e transformado em soldado, seu pai é forçado a trabalhar para adquirir diamantes que serão vendidos para contrabandistas internacionais, financiando as armas que manterão o movimento revolucionário num ciclo sem fim em que libertadores são na verdade escravizadores do mesmo modo que o grupo de Bane faz com o povo de Gotham.



Outro aspecto deveras perturbador que ressalta o laço que Nolan estabelece com a realidade  em seu mundo é quando Blake descobre que a garotos de seu antigo orfanato - agora desamparados sem a assistência da fortuna Wayne - estavam sendo recrutados pela Liga das Sombras, indo viver nos esgotos. Quando questiona o irmão de um dos garotos que apareceu morto ali, este lhe responde:

"Ele disse que tinha comida e trabalho lá embaixo".



Hoje na Europa os descendentes dos que imigraram para lá em décadas passadas são tratados como cidadãos de segunda categoria, marginalizados pela sociedade e e desassistidos pelo Estado. São esses jovens que estão sendo recrutados por células terroristas para irem treinar com a Al Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio. Foi exatamente o que ocorreu com os Irmãos Kouachi, responsáveis pelo Massacre do Charlie Hebdo. Vieram de um orfanato e viviam numa região pobre com desemprego e desigualdade social à rodeá-los por toda parte [leia mais aqui].

Estavam perdidos procurando seu lugar na sociedade, até encontrarem um caminho... na religião. Religião que foi usada por extremistas para torná-los homicidas e suicidas. Nolan usou Gotham para representar o que vem ocorrendo a muito tempo na Europa e as pessoas se recusam a enxergar, enquanto o mundo caminho cada vez mais próximo para essa realidade de extremos.



Apesar de Daggett se revelar como uma marionete no plano mestre da Liga das Sombras, ao fim do longe metragem, quando os personagens estão tentando salvar Gotham da bomba relógio de Bane, é feita a grande revelação da trama: quem realmente arquitetou tudo foi Miranda Tate, ou melhor, Talia Al Ghul, a filha de Ra's Al Ghul.

Algumas pessoas acharam que Nolan fez uma virada de 180º na história quando na verdade ele fez uma volta completa de 360º. No começo Bane trabalha para um rico bilionário, depois o traiu e se revelou como líder de uma revolta popular dos 99%... para no fim descobrirmos que ele trabalhava mesmo para uma rica bilionária, ou seja, o 1% sempre esteve no controle da "revolução".



Napoleão dizia que quem escreve a História são os vencedores. Por isso o Golpe Militar de 1964 no Brasil passou anos sendo chamado de Revolução de 64. Miranda Tate não passava de mais uma bilionária que patrocinou uma falsa Revolução, que na verdade era um Golpe de Estado. E o que poderia ser visto como crítica aos movimentos sociais era na verdade uma crítica a sobre como o terrorismo pode se disseminar graças ao capitalismo e à especulação financeira. Um detalhe muito importante é que, ao se revelar para Batman, Talia diz:

"Apesar de não ser comum, também sou cidadã."



Ou seja, ela não nega a face de Miranda Tate, neste momento não recorre a fala do Bane para a população de Gotham - cujo discurso era tão vazio como o de muitos líderes populistas da vida real que tornaram-se ditadores. Lembrando que quando Bane mata Daggett ocorre o seguinte diálogo:

" -Você é todo mal.
  - Eu sou o mal necessário."


Ao longo da história as pessoas defenderam ditaduras como um "mal necessário"... incluindo Harvey Dent no segundo filme da trilogia, O Cavaleiro das Trevas, como citei no Capítulo VI de O Super-Herói da Mente. Mas mais uma vez recordamos que essa é a história do Batman e o papel da Máscara (ou Persona) é essencial para uma compreensão tanto micro quanto macro de seu significado. Por exemplo, a Luta de Classes não se encaixa d amesma forma quando posta no contexto do Extremismo Religioso.

Bane não é um revolucionário idealista como Robespierre que virou um ditador inescrupuloso e se corrompeu. Ele é um pobre coitado que se tornou um terrorista extremista sanguinário após conhecer o inferno na Prisão do Poço porque um dia da sua vida infeliz decidiu bancar o herói e salvar a pequena Talia, que se tornou a sua única razão pra viver e morrer e deixa claro para Bruce no Poço que só vai jogar com a política para dar Esperança a Gotham, pois nutrir Esperança foi a maior tortura a que foi submetido. 



E Miranda também não é a ativista ambiental politicamente correta com consciência social que gasta sua fortuna em suntuosas festas filantrópicas para outros bilionários para ajudar os desafortunados. Ela é uma garota rancorosa comas pessoas em geral e uma mulher marcada por seu passado naquela Prisão que se sente culpada pela morte do pai que renegou tendo como única meta procurar honrar a memória dele da mesma maneira que Bruce sempre faz com Thomas Wayne.

A Prisão do Poço, aliás, é outra conexão da trilogia com a política do mundo real. No Brasil, por exemplo, grandes organizações criminosas surgiram de dentro dos presídios, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC),  e passaram a controlar um espaço negligenciado pelas autoridades.



O Professor britânico Roy King, um dos maiores especialistas em sistemas prisionais declarou a revista Isto É ao analisar as prisões no Brasil:

" Por que no Brasil é diferente?
 


Roy King - No Brasil, as prisões recebem muito pouco do Estado, e os presos são completamente dependentes daquilo que é trazido pelos familiares. É muito comum que eles se vejam controlados pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) ou outros grupos que controlem e redistribuam aquilo que entra nas penitenciárias. E, mesmo que isso seja apresentado como uma espécie de sistema socialista “de cada qual segundo sua capacidade, a cada qual segundo suas necessidades”, há exploração e uma divisão de classe entre os presidiários. Numa cadeia brasileira, você vê que alguns detentos têm penteados elaborados e tênis de marca, enquanto outros mal têm o que vestir.

 
O PCC existe por causa da ausência do Estado?
 
Roy King - Sim. Já ouvi políticos dizendo que criminoso bom é criminoso morto. Além disso, aqui as desigualdades são imensas e existe uma subclasse de onde vem a maioria dos que estão no sistema penitenciário. Como ninguém se importa com eles fora dos presídios, ninguém se importa com eles lá dentro também. É aí que o PCC entra. Quando as autoridades não agem, há um vácuo para ser preenchido. Se o Estado garantisse condições carcerárias mínimas, os detentos veriam o sistema com alguma legitimidade e a facção perderia um pouco de sua força. "
[leia mais aqui].



Evidentemente um Estado excessivamente enérgico pode levar ao extremo oposto - que mais uma vez exemplifica a Teoria da Ferradura - que foi o que ocorreu com a lei que levava o nome de Harvey Dent em Gotham, e que também gerou uma rachadura na sociedade que permitiu a Talia, Bane e companhia a se infiltrarem para ressuscitarem os planos de Ra's Al Ghul.

Então voltamos mais uma vez a a Liga das Sombras e a Ra's Al Ghul, que foi quem começou tudo, inclusive para Bruce. E voltamos a Batman Begins e ao memorável diálogo entre Batman e Ra's pouco antes do incêndio da Mansão Wayne e do ataque terrorista ao Narrows - que, convém lembrar, era a região mais empobrecida de Gotham:

" - Mas, na verdade, você vai soltar o veneno por toda a cidade.
   - E depois assistir a destruição de Gotham pelo medo.
   - Você destruirá milhões de vidas.
   - Só um cínico chamaria de "vida" o que essa gente tem Wayne. Crime. Desespero. Não é assim que os homens deveriam viver.  A Liga das Sombras combateu a corrupção humana por milhares de anos. Devastamos Roma. Enchemos navios mercante de ratos.  Ateamos fogo em Londres. Toda vez que uma civilização atinge o auge da decadência voltamos para restabelecer o equilíbrio.
- Gotham ainda pode ser salva. Dê-me mais tempo. Há pessoas boas aqui.
- Você defende uma cidade tão corrupta que nos infiltramos em cada nível da infraestrutura... Quando encontrei você na prisão, estava perdido. Mas eu acreditei em você. Tirei o seu medo e lhe mostrei um caminho. Você foi meu melhor aluno. Deveria estar ao meu lado agora, salvando o mundo.
- Vou ficar onde é meu lugar. Entre você e o povo de Gotham. "


Parte V

Mas se todos tem uma contraparte, com a Liga das Sombras não é diferente. Além da Máscara, poderiamos também utilizar o elemento do Espelho, que tratamos no capítulo anterior, para melhor entendimento.

Além de em momento algum Nolan citar a religião muçulmana diretamente ele escolheu para interpretar os líderes terroristas atores caucasianos: Liam Neeson, Tom Hardy e Marion Cotillard. Logo no começo de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Bane se deixa ser capturado pela CIA (Central de Inteligência Americana) para pegar o Dr. Pavel. Ora, a CIA foi talvez a maior patrocinadora de ditaduras pseudo revolucionárias do século XX, incluindo a última ditadura militar no Brasil.



Em Batman Begins, Ra's Al Ghul explica a Bruce como a Liga das Sombras foi a responsável pela Depressão Econômica que atingiu a cidade e que supostamente teria levado Joe Chill a cometer o latrocínio que vitimou Thomas e Martha Wayne:

"- Já atacou Gotham antes?
  - Claro! Com o tempo nossas armas ficaram mais sofisticadas. Em Gotham tentamos uma coisa nova: Economia. Mas subestimamos alguns cidadãos de Gotham... como os seus pais. Foram mortos por uma das pessoas que eles ajudavam. Crie fome suficiente, e todos se tornam criminosos. Suas mortes incitaram a cidade a se salvar e Gotham tenta sobreviver desde então. Voltamos para terminar o serviço. Desta vez nenhum idealista desorientado vai nos atrapalhar. Como a seu pai falta a você a coragem para fazer o que é necessário. Se alguém atrapalha a verdadeira justiça você simplesmente vai atrás e o apunhala no coração."


Um método de espionagem utilizado por dois órgãos ligados à CIA, a NSA (Agência Nacional de Segurança) e o USAID (Agência Americana Para o Desenvolvimento Internacional) para atingir países inimigos são os Assassinos Econômicos. Tratam-se de agentes especiais enviados a países em desenvolvimento com a finalidade de endividá-los enquanto desviam verbas e recursos naturais dos mesmos para grandes corporações. Esse procedimento foi denunciado por John Perkins, um destes agentes, em seu livro Confissões de um Assassino Econômico.

Quando Bruce e seus amigos conseguem tornar Gotham um lugar menos pior do que era no início do primeiro filme - mas ainda longe do ideal mesmo no terceiro - eles estão numa posição muito similar a de países em desenvolvimento que são vítimas da política externa imperialista dos EUA. A bandeira de Bane como opositor dos corruptos e da corrupção é um discurso vazio utilizado ao longo do século XX por regimes totalitaristas para chegar ao poder.




Mais do que isso. Os EUA e seus aliados (Israel, Arábia Saudita) são diretamente responsáveis pelo financiamento, armamento e fortalecimento de grupos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico. Estes grupos extremistas eram aliados e braços armados dos EUA em territórios como Afeganistão e Síria e eram a forma dos norte americanos derrubarem os governos locais fomentando guerras civis sob alegação que as pessoas lá viviam em regime de opressão, quando na verdade as grandes corporações por trás do governo norte americano queriam os recursos naturais dessa regiões - mais especificamente o Petróleo.

Só que em algum momento o conceito de Luta de Classes foi ofuscado pelo contexto da Religião e passou a ser mais importante aos Extremistas fanáticos combaterem o próprio Ocidente e criarem uma guerra santa. Ou seja, mesmo se enfrentando, são faces da mesma moeda. Ou seja, ricos capitalistas patrocinaram e armaram até os dentes terroristas fanáticos genocidas e suicidas que hoje querem destruir a corrupção da civilização ocidental. Do mesmo modo que Miranda Tate/Talia Al Ghul fez com a Liga das Sombras enquanto ela planejava mandar Gotham pelos ares. O que significa que a Liga das Sombras não é apenas uma representação de grupos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, mas também dos EUA e da CIA.



Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge vemos Gotham ainda como uma metrópole corrupta, porém é inegável que houve um progresso desde que Bruce saiu de lá pela primeira vez para viajar pelo mundo.

Um interesse externo atacando um país utilizando acusações falaciosas de corrupção - que mesmo continuando a existir, diminuiu - é bastante semelhante a protestos recentes contra governos progressistas da América Latina, manifestações orquestradas pela CIA e grandes capitalistas com o intuito de desestabilizar tais governos fomentando golpes de estado. No final da trilogia Bruce percebe que Batman nunca poderia salvar a cidade, pois isto caberia aos próprios cidadãos.



Notadamente a figura do Morcego também exerce um fascínio religioso que exprime um lado bom desse tipo de conexão espiritual. Por isso os desenhos com giz feitos pelas pessoas sempre alimentando a Esperança que o Batman voltaria para resgatá-los e por isso também Batman faz o símbolo do morcego gigante na ponte, como declaração de guerra a inimigos e um recrutamento aos aliados, como o policial Peter Foley que não atendeu ao chamado de Gordon, mas mudou de ideia ao ver o Bat-Sinal na ponte e sacrificou sua vida enfrentando a Liga das Sombras.

No entanto, o protagonista se esforça para devolver de alguma às pessoas o sentimento que elas projetam nele. Quando Gordon quer saber quem o herói era quando ele está indo com um plano suicida de levar a bomba nuclear até a baía, Batman lhe diz:

"Um Herói pode ser qualquer um, até mesmo um homem comum que faz um gesto simples e reconfortante como colocar um casaco nos ombros de um garoto pra ele saber que o mundo não acabou."




Esse foi o jeito do protagonista dizer a Gordon: "Você foi o meu herói". Pela mesma razão, Bruce deixa todos os seus bens para a cidade - exceto o colar de sua mãe - e praticamente ESTATIZOU a Mansão Wayne para que ali fosse sempre o lar de órfãos como ele.

Nos livros de Charles Dickens é comum encontrarmos órfãos como protagonistas. Selina e Holy lembram bastante os trapaceiros de rua de outra obra do autor, Oliver Twist. E então, retornamos ao livro Um Conto de Duas Cidades. A Cidade dos 99% e a Cidade dos 1%. E é flutuando entre esses dois mundos que Bruce Wayne e Selina Kyle se encontram.


" - E você está fantasiado de quê?
 - Bruce Wayne, milionário excêntrico".
A verdade é que Bruce não quer fazer parte daquilo em seu íntimo - jamais foi feliz com o dinheiro de sua família - e assim como Selina, ele apenas gostaria de acabar tudo e recomeçar. Ele se tornou uma outra pessoa, Batman e queria desesperadamente voltar a ser quem era antes de cair naquele bendito poço quando criança.



Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge os 1% são os grandes responsáveis por todos os danos causados. Daggett além de comandar roubos corporativos e o ataque à Bolsa de Valores, fornece o material usado pela Ligas das Sombras para destruir o estádio e as pontes, separando Gotham do resto do mundo, Talia é a própria Liga da Sombras em todo o seu plano de tortura e assassinato de milhões e Bruce tem seu arsenal roubado e utilizado para instaurar uma ditadura, além de ver seu reator de energia limpa transformado numa bomba nuclear. Tal como nas HQs, o personagem nunca se sentiu ajustado a esse mundo

Além disso, Talia seria ao mesmo tempo Madame Defarge, que em Um Conto de Duas Cidades era na verdade a única sobrevivente da família de camponeses massacrada pelos Evremonde. Ambas as personagens são um poço de rancor e colocam a Vingança acima da Justiça, mesmo dilema que atormentou a  vida de Bruce durante anos.



No livro de Dickens o personagem Sidney Carton é apaixonado pela filha do Dr. Manette, Lucie. Mesmo quando ela decide se casar com Charles Darnay, Carton lhe diz que daria sua vida por ela "ou pelas pessoas que ela ama". Os gregos chamavam esta forma de amor incondicional de Ágape. No fim de Um Conto de Duas Cidades, Carton aproveita-se de sua semelhança com Darnay e toma o lugar dele na guilhotina para que o outro possa fugir da França, viver e ser feliz ao lado de Lucie.

As últimas palavras de Carton que encerram o livro são as mesmas ditas por Gordon no funeral de Bruce, pois ele está lendo o livro de Dickens:



"Eu vejo uma bela cidade e um povo radiante ressurgindo do abismo... Eu vejo vidas pelas quais dei minha vida, tranquilas, úteis, prósperas e felizes... Eu sinto que sou bem-vindo em seus corações e nos corações dos seus descendentes, das gerações por vir. É uma atitude muito melhor a que tomo agora, a melhor que já tomei... é um descanso muito melhor para o qual me vou... o melhor que já conheci."

Aproveitando-se da questão psicológica que estabelece Bruce e Batman como pessoas diferentes, Christopher Nolan realizou a mais criativa adaptação possível do final do livro. Batman foi muito mais heroico, porque fez mais do que salvar Gotham, salvar os órfãos...



Assim como Sidney Carton se sacrificou para salvar Charles Darnay, Batman se sacrificou para salvar Bruce Wayne.





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