domingo, 23 de novembro de 2014

Climatinê: Interestelar

por
Corto de Malta




'' E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.''


Para criar uma odisseia espacial Christopher Nolan fez uma verdadeira salada de referências misturando Isaac Asimov, Stanley Kubrick, Fritz Lang, Albert Einstein, Jorge Luis Borges e filmes de faroeste. Tudo isso pra dar vida a uma obra que ironicamente não era pra ser sido feita por ele.

SPOILERS 
E = MC²



Num futuro próximo não existe mais o que plantar no planeta Terra a não ser o milho, que também está com os dias contados. As pessoas voltaram a morar no campo e existe muita fome no mundo. Cooper (Matthew McConaughey) é um ex-engenheiro e piloto da NASA que vive com os filhos Murph e Tom numa fazenda ao lado do sogro Donald (John Lithgow) depois que a esposa morreu.

Quando Murph (Mackenzie Foy) passa a presenciar manifestações estranhas em seu quarto, Cooper junta uma série de pistas que os leva a um projeto secreto da NASA encabeçado pelo Dr. Brand (Michael Caine) e sua filha Amelia (Anne Hathaway). a esperança deles é atravessar um buraco de minhoca que surgiu perto de Saturno, achando assim um atalho para outra galáxia onde possam encontrar uma planeta habitável para a raça humana.


Cabe a Cooper tomar a dura decisão de deixar sua família para trás para poder salvá-la... mas o longo caminho reserva uma série de surpresas.

Originalmente Interestelar era um roteiro feito pelo irmão de Christopher, Jonathan Nolan, para ser dirigido por Steven Spielberg baseado nas teorias científicas do físico Kip Thorne. Spielberg acabou se desligando do projeto, enquanto Christopher se interessou por ele, reescrevendo o roteiro do irmão. Você pode ver como seria a versão spielberguiana da história aqui.


Porém, Thorne seguiu no projeto atuando como um consultor muito atuante. Segundo o próprio toda a parte científica no filme é baseada em conceitos reais da Física ou em especulações plausíveis de cientistas... exceto pelas nuvens de gelo. Aquilo é licença poética mesmo. Veja mais aqui.

Estes dois pontos nos levam a duas das maiores críticas que o filme tem recebido. Uma diz respeito a uma suposta tendência de Direita do cineasta. Acontece que coisas como a referência a União Soviética já estavam no roteiro original. Além disso, Nolan modificou algumas coisas da versão anterior do script que com certeza soariam muito mais de Direita caso fossem mantidas.



Basta dizer que os antagonistas seriam robôs chineses (!) que foram substituídos pelo personagem de Matt Damon. Ou seja, se não deu uma guinada à Esquerda na sua nova versão, Nolan tomou cuidado para humanizar o que já estava lá, acrescentando toda uma subtrama envolvendo o personagem de Damon, o Dr. Mann.

Quanto a parte científica, Nolan também confirmou que a mesma era responsabilidade de Thorne, um dos físicos mais renomados do mundo, e sugeriu aos críticos que lessem o livro dele, Black Holes and Time Warps: Einstein's Outrageous Legacy.



E esse talvez seja o grande mérito de Interestelar: criar dramaturgia baseada nas teorias de Albert Einstein trabalhadas ao longo dos anos por Thorne e seu amigo Stephen Hawking. Trazer o que há de mais avançado atualmente em termos de Ciência, Buracos de Minhoca, Buracos Negros, Quinta Dimensão etc. para uma história atemporal sobre o amor de um pai por sua filha e sobre o desejo irrefreável do ser humano de embarcar em busca do desconhecido.

Posso dizer que já havia visto algo parecido em Quadrinhos, Animação (especialmente japonesa) e Séries de TV, mas não no Cinema. Não desta forma tão intensa e detalhista. A Sétima Arte sempre foi mais tímida pra lidar com temas como os efeitos da Teoria da Relatividade. Um dos raros longa metragens que me ocorre sobre o tema é O Voo do Navegador. Mesmo entre os animes, me recordo apenas de um de ficção científica, com uma premissa bastante semelhante a do filme dos irmãos Nolan, exibido a muitos anos na Rede Manchete.


Era sobre um casal que partia numa nave indo repovoar um novo planeta como Adão e Eva e criavam seus novos filhos num lugar lindo e cheio de vida após passarem anos viajando em animação suspensa. O que eles não sabiam é que o filho que eles já tinham na Terra cresceu e usou toda a fortuna da empresa da família para pegar um atalho no espaço através de um buraco de minhoca e usar tecnologia de terraformação num planeta estéril para torná-lo habitável já que ele sabia que seus pais iriam pra lá.

Depois, já velho, ele voltava lá e entrava em conflito com as novas crianças de seus pais porque o consideravam um intruso no ''paraíso'' deles e não faziam ideia de que eram irmãos. (Se alguém lembrar o nome do anime favor citar nos comentários). Confesso que achei que Interestelar seguiria esse caminho, mas Nolan foi muito além disso, ainda que os conflitos familiares sejam igualmente marcantes. O momento que a personagem de Murph adulta, vivida por Jessica Chastain,  pergunta se o pai a abandonou na Terra pra morrer de fome é uma das cenas mais fortes já feitas pelo cineasta.


Existe também uma evocação aos Westerns, as clássicas histórias dos desbravadores do Cinema, algo que você já podia notar na Trilogia Cavaleiro das Trevas. Cada vez fica mais evidente que Nolan bebe dessa fonte e chega a ser curioso imaginar como ele faria um Western pra valer. A cena em que Cooper e Amelia estão perseguindo a nave levada pelo Dr. Mann é uma versão espacial das cenas com cavalos e diligências desgovernadas no velho oeste.

Falando em homenagens, é impossível não citar Stanley Kubrick e um dos filmes favoritos de Nolan: 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Mas não se engane. Apesar de haverem muitas semelhanças - especialmente na questão técnica, como o sistema de rotação da nave, e estéticas, como a aparência peculiar dos robôs de Nolan - são obras de ficção científica que refletem sobre a evolução humana seguindo caminhos bastante diferentes, ainda que vez ou outra se encontrem na imensidão do espaço.



No final - diferente do roteiro que Spielberg filmaria - Nolan usa um recurso deus ex machina para ligar toda a trama, algo mais comum do que se pensa no gênero ficção científica. Mais do que isso. Foi neste momento que na minha visão o cineasta se desprendeu de Kubrick e assumiu de vez o espírito de uma história de Isaac Asimov.

Quem já leu Asimov vai encontrar mais do que referências científicas, robóticas ou futuristas em comum com Interestelar. O próprio estilo narrativo é o mesmo, como "brincar" de transformar um clímax em anti clímax deliberadamente com a intenção de gerar uma brainstorming no público. A própria piadinha no Satélite envolvendo as identidades de pai e filha é a cara do humor dos contos do Asimov.



Mas sem sombra de dúvida o que mais assombrou o público que já vinha se esforçando pra entender a complexidade das questões de espaço e tempo, foi a cena da "biblioteca", a ponto de nessa hora uma pessoa no Cinema comigo exclamar "Ih! Deu tilt!". Lembrando que o filme trabalha intimamente com a Física: a primeira dimensão é a linha, a segunda dimensão é o plano, a terceira dimensão é o espaço, a quarta dimensão é o tempo e a quinta dimensão é o multiverso. Entenda melhor aqui.

Bem, você pode ver a lista dos livros que estavam na estante do quarto da personagem de Murph clicando aqui. O próprio diretor revelou na revista Wired quais eram os livros da estante. Entre eles lá estava caprichosamente colocado Labyrinths (Labirintos), coletânea de contos de Jorge Luis Borges. 



Um destes contos chama-se A Biblioteca de Babel. É uma obra metafísica onde Borges descreve uma biblioteca interminável formada por galerias hexagonais, onde estaria o conhecimento infinito tanto para todas necessidades de sobrevivência humana quanto para conceitos considerados inúteis, e onde haveria a lenda do ''Homem do Livro'', um ser messiânico que os bibliotecários acreditam ser o único que já leu o ÍNDICE das obras da Biblioteca.

A Biblioteca de Babel também inspirou outras obras como O Nome da Rosa de Umberto Eco (onde um dos personagens essenciais da trama chama-se Jorge), mas a sacada de usar uma obra emblemática de um dos mestres do Realismo Fantástico no clímax de uma história de Ficção Científica para solucionar a situação do Buraco Negro - o qual ainda é um mistério para os próprios cientistas - é uma das ideias que tornam Interestelar inesquecível. Leia mais sobre a relação entre o conto e o filme aqui.


Pra encerrar, eu sempre tive a impressão de que a maior influência de Nolan como cineasta foi Fritz Lang, mais até mais do que Kubrick. Por isso fiquei a projeção inteira aguardando onde Nolan ia colocar A Mulher na Lua, única obra de Lang que tem como tema a exploração do espaço sideral. E lá está ela, no epílogo. Através de uma elipse, bem ao estilo do seu discípulo.

Por mais que me incomode a decisão final do personagem Cooper, não consigo não gostar do modo como Nolan fez o público montar na sua própria cabeça um final IGUAL ao de A Mulher na Lua, com direito até a visão solitária dos ''acampamentos interplanetários'' nos dois longa metragens. Além disso, depois que parei pra refletir notei uma grande similaridade entre a música de Hans Zimmer e a trilha sonora do filme de Lang.



Com uma belíssima fotografia - que segue a opção estética de mostrar a expressão emocional do rosto humano com a mesma dimensão e impacto que as maravilhas da astronomia retratadas na tela grande, - e com grandes atuações de McConaughey, Foy, Damon e Chastain, Interestelar já está marcado como uma das grandes obras da ficção científica na história da Sétima Arte, além de acrescentar mais uma grande reflexão sobre os rumos da Humanidade.

Leia aqui o conto completo A Biblioteca de Babel.



P.S.: Os versos recitados pelo Dr. Brand e pelo Dr. Mann fazem parte do seguinte poema de Dylan Thomas:


Não entres docilmente nessa noite serena, 
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.



4 comentários:

TODDY COGUMELO disse...

Post maneiro, mas esse filme foi uma bosta!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Post bosta para um filme merda!!!!!

JOSÉ RENATO MAMEDE PEREIRA disse...

Esse é o melhor "post" que já li a respeito do filme Interestelar....já li muita coisa infundada e vc , Corto de Malta,nos presenteia com muita informaçao preciosa e clara,além de muitos links esclarecedores.Rapaz,parabéns!!!É um texto enriquecedor pra mim ,pois adoro descobrir e entender cada vez mais sobre esse filme que tanto me fascina, a ponto de assisti-lo 3 vezes.Parabéns e continue firme em seu propósito....Ao infinito e além!

Corto de Malta disse...

Obrigado José Renato.

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