terça-feira, 21 de junho de 2011

Climatinê: Os Agentes do Destino

por
Corto de Malta

Como é que uma premissa tão instigante virou um filme tão fraco?

Baseado em um conto de Philip K. Dick (autor de ficção científica que ficou mais conhecido do grande público após  adaptação de Blade Runner por Ridley Scott), Os Agentes do Destino narra a vida do político em ascenção David Norris (Matt Damon) que encontra um dia por acaso (?) a jovem bailarina Elise (Emily Blunt), com quem demonstra uma afinidade natural logo de cara, a ponto de engrenarem o princípio de um relacionamento mais íntimo.

Porém, logo após o segundo encontro com a moça, David sem querer fica sabendo da existência de um grupo de homens misteriosos que usam chapéus fora de moda desde a primeira metade do  século passado, atravessam portas como buracos negros interdimensionais, paralisam o tempo e controlam o rumo das vidas das pessoas: tais homens são conhecidos como os agentes do destino. Esse grupo secreto estaria ditando os rumos da Humanidade a tempos e, pra surpresa do protagonista, tem grandes planos para a carreira política dele, planos esses que não incluem de jeito nenhum a presença de Elise em sua vida.

Sem nunca se conformar com essa decisão, David vai passar os próximos anos tentando driblar a vigilância dos agentes para os mais fugazes reencontros com sua amada, sempre na esperança de não ter que perdê-la novamente por obra do "destino".

Quando o diretor George Nolfi mostrou o projeto ao astro Matt Damon, o ator conta que se interessou pela mesma razão que atrairia muitos a verem uma história assim: contar ao mesmo tempo uma história de amor e ficção científica. O problema é o jeito como Nolfi faz isso, entregando um trabalho irregular.

Se por um lado a parte correspondente a ficção científica é superficial (não é incômoda como no conto original e nem leva a uma reflexão maior de nada), o romance é mal amarrado na trama, não ficando muito diferente de uma telenovela onde todo mundo faz de tudo pro mocinho não ficar com a mocinha e ponto.

A idéia básica de Nolfi de incrementar a história paranóica original de K. Dick com a paixão de David e Elise poderia ser ter tido um resultado genial, afinal o que pode ser mais paranóico que um amor sufocado que atravessa o tempo e desafia as regras estabelecidas para a própria vida dos personagens por um escritório de burocratas que parecem uma versão moderna das Parcas da mitologia grega? Um verdadeiro pesadelo kafkiano na teoria. No entanto, não se constrói uma trama sólida só com boas intenções e o destino do filme é ser um longa metragem com desenvolvimento e soluções forçadas demais:

SPOILERS ABAIXO

Se David era tão brilhante a ponto de desafiar seu próprio destino, por que passaria mais de quatro anos só procurando Elise ao invés de tentar descobrir mais detalhes sobre como os Agentes do Destino governavam o mundo? Mais. Por que ele continuaria tentando ser um político influente se agora acreditava que que uma organização misteriosa controlava o planeta, independente de sua vontade e de suas ações? Isso não vai de encontro a natureza do personagem descrita pelos próprios Agentes?

Os poderes dos Agentes também ficaram confusos. Só se sabe que eles vivem mais que um humano normal e que, sem o chapéu, são incapazes de se teletransportar pelas portas como uma limitação de poder. Mas eles também movem objetos com a mente. E quem eram aqueles outros de capacete que reinicializavam as pessoas?

Quando David é levado para aquele galpão a primeira vez, o Agente Richardson o faz tropeçar erguendo um pedaço do piso. Três anos depois ele é incapaz de fazer o mesmo pra impedi-lo de ver Elise dançar e ficam naquela correria desenfreada pelas ruas de Nova York. Sem falar que no primeiro encontro com os seus antagonistas, David os testemunha paralisando as pessoas do seu escritório. Por que não fizeram isso ao invés de causar um acidente de carro e envolver até um falso policial, que foi facilmente desmascarado?

A cena do Agente Harry explicando a David sobre a morte de seu pai e seu irmão é bizarra pela completa falta de reação do protagonista. Tipo: você causou a morte do meu pai e meu irmão, mas são ossos do ofício. A vida continua.
Mas hein?

Igualmente bizarro é Elise acreditar em David tão rápido no banheiro do tribunal... ainda mais depois de vê-lo nocautear um desconhecido do nada.
Pelo menos agora eu sei como conquistar uma mulher: É só procurar um cara de chapéu e socar a cara dele com força! Elas não resistem!

Acho que o que mais me incomodou é que, tirando um brevíssimo diálogo entre Harry e David no início do filme, o protagonista jamais questiona a existência ou não de Deus num mundo comandado pelos Agentes do Destino.

Pra mim quem se salvou no longa metragem foram mesmo Terence Stamp, particularmente quando seu personagem explica a função dos Agentes através da História e Emily Blunt, que fez quase um milagre dando credibilidade a uma personagem que fica a parte de toda a trama durante 90% do filme. Ela com  certeza ainda vai mostrar num projeto futuro que é uma grande atriz.

Inclusive é muito difícil pro público se colocar no lugar de Elise e por pouco ela não termina como uma coadjuvante dispensável no roteiro. Talvez fosse mais interessante se essa cena do banheiro do tribunal  fosse a sequência de abertura do filme e partir daí é que a história começasse a explicar como David se tornou tão  angustiado e até violento e porque ainda assim Elise seguiria esse homem (paranóico?) incondicionalmente.

Infelizmente a ambiguidade, um conceito que tanto enriquece a arte é um elemento cada vez mais desvalorizado pelo cinema atual. E como discutir com autenticidade a questão do livre arbítrio, um dos temas proposto por George Nolfi, se se condiciona o público precisamente para seguir a veeelha escala do romance água-com-açúcar e da luta do bem contra o mal? Sou eu que estou ficando paranóico também ou não seriam o cinema e as demais mídias de hoje, que nos entregam respostas pra perguntas que nem fizemos ainda, os verdadeiros agentes do destino?





Um comentário:

Renver disse...

Minha profesora de Toxicologia que é uma gracinha...

Adorou esse filme...

Tô envergonmhado...

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