quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cartas de um Navegante: Metrópolis com Orquestra ao Vivo

por
Corto de Malta

A obra-prima de Fritz Lang foi restaurada e exibida com orquestra ao vivo no Theatro Municipal. E eu estava lá.
Infelizmente essa coluna só está saindo agora devido a inúmeros contratempos, mas acho que o mais importante é que ela saia. Vamos em frente.

O diretor Fritz Lang lançou o filme Metrópolis em plena Alemanha de 1927, às vésperas da ascenção de Hitler ao poder naquele país. O impacto do longa metragem logo a tornou um marco no Cinema. De lá pra cá muita água rolou debaixo da ponte. Fugindo do regime nazista, Fritz Lang foi viver e criar seus filmes na França e nos EUA e só voltou pra Alemanha na década de 50. Já Metrópolis sofreu uma edição logo após o lançamento que cortou fora cerca de 1/4 do filme, chegando mesmo a deixar algumas cenas da história incompreensíveis, mesmo que isso não abalasse sua grandiosidade.


Em 2008 foi achada uma cópia na Argentina com boa parte dessas cenas cortadas (cinéfilos ainda acalentam a esperança de um que dia 100% do filme seja encontrado) e isso motivou algumas exibições especiais da película para uma platéia ávida a reinterpretar o clássico da ficção científica de uma nova dimensão ou mesmo pra quem, como eu, nunca teve oportunidade de assistir as aventuras de Maria e Freder.

Foi assim que, em março, vivi a experiência de assistir a projeção de Metrópolis com acompanhamento ao vivo da Orquestra Sinfônica Brasileira no Theatro Municipal. Digo experiência porque foi realmente um deleite ver um filme tão fantástico num local tão majestoso quanto o Theatro Municipal e com uma música tão marcante. Uma pena a grave crise que assolou a Orquestra Sinfônica Brasileira após o evento, toda essa briga aconteceu justamente quando graças ao sucesso das sessões, pessoas estavam começando a conhecer o trabalho da OSB.

Vale ressaltar que Metrópolis é um filme mudo e tem sido comum a inciativa de exibições públicas de alguns clássicos da época do Cinema sem som acompanhados de orquestra, exatamente como ocorria quando tais filmes eram lançados nos primórdios da Sétima Arte, com a música entrando ao vivo. Ou seja, em muitos aspectos o evento conseguiu nos dar a sensação de estar assistindo um clássico na estréia.

O filme de Lang narra uma sociedade futurista residente numa cidade suntuosa e ultratecnológica, Metrópolis, que é controlada com mão de ferro por seu líder, Jon Fredersen. Ele estabeleceu um rígido sistema de castas. Enquanto os planejadores vivem no topo dos arranha-céus, os trabalhadores braçais penam confinados nos subterrâneos da cidade futurista.

A história começa quando Freder, o filho de Jon Fredersen, que sempre teve tudo do bom e do melhor sem jamais precisar trabalhar ou se preocupar, conhece a angelical Maria, líder espiritual dos trabalhadores. Fascinado pela jovem, Freder a segue ao subterrâneo apenas para descobrir as precárias condições de vida a que são submetidos aqueles homens. Horrizado, ele tenta recorrer ao pai, que reage com frieza, mas se mostra insatisfeito com a influência da moça sobre seus comandados, o que preocupa o capataz Grot, que controla as máquinas da cidade.

Também influenciado pelas palavras de Maria e renegando seu legado junto ao pai, Freder passa a considerar os trabalhadores como seus irmãos e, com ajuda de Josafá, escrivão injustamente demitido por Jon Fredersen, o filho do líder de Metrópolis decide viver como um dos subterrâneos, trocando de lugar com o operário Georgy, que deveria buscar refúgio na casa de Josafá para manter todos longe da vigilância do pai de Freder, enquanto este, após experimentar uma árdua jornada de trabalho substituindo Georgy, presencia uma reunião dos trabalhadores com Maria, que faz uma pregação dentro dum tipo de culto secreto para eles.

Ela busca canalizar os ânimos exaltados daquele povo oprimido e explorado ao prometer a chegada de um mediador que falaria em favor de todos eles. E, para Maria, tal mediador é o próprio Freder.

Mas as coisas degringolam quando Georgy não segue o plano e decide aproveitar a vida de riqueza de Freder, expondo a si, ao casal e a Josafá ao espião enviado por Jon Fredersen. Este, por sua vez, decide recorrer ao sinsitro cientista Rotwang, com quem no passado disputou o amor de Hel, a mãe de Freder que morreu ao dar a luz ao filho.

Obcecado pela amada morta, Rotwang criou um Robô como réplica da esposa de seu rival. Jon Fredersen o convence a alterar a aparência de sua crianção para torná-la igual a Maria, que por sua vez é sequestrada e mantida prisioneira pelo cientista louco.

Enquanto isso, a Maria Robô parte o coração de Freder e decide incitar o povo do subterrâneo a se vingar dos seus senhores na superfície, corrompendo a doutrina de paz e harmonia da Maria original, para desespero de Grot, que é incapaz de impedir a turba enfurecida de se vingar das máquinas opressoras sem perceber que as mesmas máquinas também mantém o suporte de vida de Metrópolis.

Nisso Josafá alerta Freder sobre as verdadeiras intenções de seu pai e ele descobre a farsa da impostora, mas também não é capaz de impedir seu domínio sobre as mentes do povo do subterrâneo, que só não o mata incitados pela Robô graças ao sacrifício de um arrependido Georgy.


Rotwang planeja assim causar a destruição de Metrópolis e se vingar de Jon Fredersen que descobre a traição e o enfrenta, dando chance a Maria de fugir (essa inclusive é uma das cenas que até hoje não foi recuperada do filme original), enquanto Freder e seus amigos tentam impedir a Maria Robô de levar os filhos dos trabalhadores para uma armadilha mortal.

O final de Metrópolis é uma sucessão de cenas de ação desenfreada onde Fritz Lang explora ao máximo os cenários grandiosos construídos nos sets de gravação, nem que seja pra destruí-los com fogo ou água para tirar o melhor efeito cênico possível. Não é a toa que o título do longa serviu para batizar a cidade do Super-Homem, pois o visual e a arquitetura de Metrópolis até hoje impressionam. O diretor teria se inspirado numa visão que teve do seu barco ao vislumbrar os arranha-céus e ruas iluminadas de Nova York brilhando a noite.

Assim como também impressiona como Fritz Lang fez uma obra-prima da ficção científica (pra alguns também um filme noir) usando uma metáfora cristã tão contundente. Aliás, acho que eu nunca assisti nada na ficção científica com um simbolismo tão religioso assim, como se pode ver desde o início quando os trabalhadores são sacrificados ao Deus pagão Moloch. Mas não pára por aí.



Vemos o Filho que decide salvar o povo que sofre, decendo do Alto e saindo da proteção de seu Pai para se sacrificar pelos Homens. Inclusive, ao substituir Georgy, Freder opera um relógio e fica de braços abertos numa posição semelhante a um crucificado, enquanto clama por seu Pai.

Também vemos uma mulher chamada Maria, alvo de veneração das pessoas como uma santa, até ter sua imagem corrompida por uma versão falsa, no que parece ser uma crítica a Igreja Católica e ao culto a figura de Maria, mãe de Jesus, que outras Igrejas acusam tratar-se de ato de adoração. Tanto que em determinada cena a Maria Robô é carregada como um estandarte (ou uma imagem) pela multidão.

Porém, Fritz Lang não parece disposto a poupar uns para acusar outros. É só ver que Georgy, antes pobre e oprimido, se corrompe ao tomar contato com a fortuna de Freder. Logo após voltar, a verdadeira Maria é injustamente acusada pelos crimes de sua sósia e perseguida pelo povo, liderados por Grot, dispostos a queimá-la viva como bruxa. Seria um reflexo do fanatismo que acomete praticamente todas as religiões?

Ou seria uma forma de retratar a ascenção e queda do Homem através de suas próprias criações, a cidade Metrópolis, que é devastada e a Maria Robô, que é quem termina sendo queimada? Jon Fredersen vivia isolado num arranha-céu chamado Torre de Babel, que de acordo com a tradição judaico-cristã, foi o mesmo nome da edificação construída pelo Homem com o objetivo de alcançar Deus, sendo por isso castigado por Ele. Por falar em locações, o lugar onde Freder conhece Maria é semelhante a uma representação do Jardim de Éden. Além disso, há esta frase de Maria:
"O Mediador entre o Cérebro e as Mãos deve ser o Coração."

Em Metrópolis, o Mediador entre Jon Fredersen e os trabalhadores do Subterrâneo deve ser Freder. O mesmo pode ser interpretado de uma das bases da doutrina Cristã, que prega que o Mediador entre Deus e os Homens deve ser Jesus.

4 comentários:

Monitor disse...

Eu atmbém estava lá e foi uma das coisas mais fodas e emocionantes que precenciei em minha vida.Valeu a pena demais e um dia espero voltar a repetir a experiência.

Marcel Camp disse...

Deve ter sido de fato uma experiência única e majestosa... inesquecível, que durará pra sempre!

Eu sou suspeito pra elogiar Metrópolis, pois sou fã incondicional da obra. Embora, alguns trechos tenham realmente ficado de fora do filme após a edição, ainda assim, é possível reconhecer o peso, a dramaticidade, a genialidade e transcedência de uma produção tão importante para a História do Cinema!!!

Joe Schuster, Jerry Siegel, Ridley Scott, Sid Méad... todos se inspiraram nessa obra-prima de Fritz Lang!

PARABÉNS POR RELATAREM ESSA OPORTUNIDADE QUE TIVERAM EM UM ÓTIMO ARTIGO.

Abrs,

www.vemaquinomeubog.blogspot.com

Renver disse...

Inveja!!!!!

So uma pergunta Josafá é filho do cientista?

Nisso Josafá alerta Freder sobre as verdadeiras intenções de seu pai e ele descobre a farsa da impostora

Corto Maltese disse...

Não Renver. O "seu pai" da frase é oJon Fredersen, pai do Freder.

Postar um comentário

Todos os comentários e críticas são bem vindos desde que acompanhados do devido bom senso.